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quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011
É a vida...
Eu, caminhando pela rua, converso com um amigo.
É triste envelhecer, ver o tempo passar e perceber, aos 45, que passamos da metade de nossa vida.
Em alguns anos, alguns de nossos melhores momentos serão na solidão do chuveiro.
Em mais alguns anos estaremos usando fraldas novamente.
Pelo caminho encontro conhecidos, falamos bobagens que fazem parte de nossas vidas.
Encontro minha musa.
Ela sorri, sem nada dizer eu a sigo e sento com ela na mesa do bar.
Dois chopes, palavras soltas, trocamos olhares, nossas mãos se tocam, sorrimos tolamente.
Ela ajeita o cabelo, disfarça um sorriso e vai.
Pergunto quando nos encontraremos novamente.
Ela sussura que sempre, e vai...
Observando extasiado seu corpo sedutor se dissolver na distância e se perder da multidão.
Me levanto e sigo. Meu amigo me alcança e me acompanha.
Em silêncio contemplo belas coisas pelo caminho.
Uma canção em minha mente.
É a vida, é bonita e é bonita...
Sabe amigo, é a vida!
quarta-feira, 4 de junho de 2008
Viagem de moto pela cultura dos anos 60
O ENCONTRO DAS TRIBOS NA CALIFÓRNIA DOS ANOS 60
Um road book de Joel Macedo
Na turbulência da guerra do Vietnã, parte da juventude norte-americana se rebela e funda o movimento hippie. “Albatroz” conta a história de um destes jovens que deixa sua cidade natal no Arizona e parte de motocicleta para a Califórnia em busca de liberdade e aventuras. Lá, encontra prazer, drogas, rock and roll e o sexo livre, até descobrir com os próprios olhos, após um show dos Rolling Stones onde pessoas foram mortas, que aquela magia estava se deteriorando. A crise vivida pelo personagem é a crise dos jovens americanos no apagar das luzes da década de 60 quando muitos tiveram que escolher entre a vida e a morte.
Este romance em ritmo de literatura de estrada, conta em detalhes a epopéia dos hippies e revela como alguns conseguiram escapar mantendo a lucidez.
Lançamento do livro
Dia 06 de Junho de 2008 (Sexta-feira) .
Horário: a partir das 19h
Local: Livraria Cultura –
Av. Paulista 2073 / Conjunto Nacional (Piso Térreo) – Tel. (11) 3170-4033
Compre aqui:
http://www.livrariacultura.com.br
Sobre o autor:
Joel Macedo é jornalista e escritor. Participou do movimento de imprensa alternativa dos anos 70 no Rio de Janeiro. Atravessou os Estados Unidos por terra em duas ocasiões e viajou pela Europa, Norte da África, Ásia Central, Índia e Nepal como correspondente da histórica edição brasileira do Jornal Rolling Stone.
Em 1972, publicou 'Tatuagem - histórias de uma geração na estrada', que se tornou um cult da literatura underground.
Neste livro, Joel Macedo visita os festivais de rock e o movimento hippie da Califórnia para resgatar uma trilha que parecia definitivamente perdida.
Contatos com o autor:
Tel: 21 - 3344-3565
joel.macedo@yahoo.com.br
quarta-feira, 12 de dezembro de 2007
Conto CARLOTA Recebe Menção Honrosa
No dia de ontem compareci ao MAC - Museu de Arte de Cascavel para receber Menção Honrosa do 7º Concurso Literário Celso Formighieri Sperança pelo conto CARLOTA.
Na foto estou ladeado por ilustres jurados, Sra. Maria Lúcia Klenhans Pereira, Poeta, professora e membro da Academia Cascavelense de Letras e pelo Sr. Antonio de Jesus, Presidente da Academia Cascavelense de Letras.
Na foto estou ladeado por ilustres jurados, Sra. Maria Lúcia Klenhans Pereira, Poeta, professora e membro da Academia Cascavelense de Letras e pelo Sr. Antonio de Jesus, Presidente da Academia Cascavelense de Letras.
segunda-feira, 15 de outubro de 2007
O mundo real da Ficção Científica
No ano de 1938, um jovem locutor de rádio estarreceu a opinião pública americana ao levar ao ar um programa inédito. O gênio Orson Welles (que se tornaria um dos mais prestigiados diretores de cinema de todos os tempos) apresentou uma adaptação do clássico de Ficção Científica Guerra dos Mundos (War of the Worlds - 1898) de H. G. Wells.
Surpreendidas pela novela que narrava a invasão da Terra por marcianos, apresentada em tom jornalístico de grande densidade dramática, centenas de pessoas fugiram de suas casas buscando refúgio enquanto outras se armavam para defender seus lares e suas famílias. Até mesmo alguns centros militares mantiveram-se em estado de alerta até que toda a confusão se esclarecesse.
O episódio serviu para comprovar algo que os estudiosos da ficção científica não se cansam de demonstrar e que o público, dito culto, recusa em aceitar. A ficção científica não é um fenômeno marginal dedicado a preencher os sonhos juvenis de fantasias absurdas e inverossímeis.
Não! A FC é um segmento artístico da ficção em geral, manifestada em todas as artes e culturas humanas.
Quando em 1938, as pessoas saíram correndo de suas casas elas não fugiam porque eram "fissuradas" em estórias de FC, fugiram porque tinham medo. O mesmo medo que fez os judeus fugirem da Alemanha Nazista, os russos fugirem da revolução Bolchevique, e mais recentemente os Hutus do governo Tutsi no Zaire.
A FC não é literatura de fantástico. Situa-se no limiar entre ciência e mistério como ambiente para descrever aquilo que de outra forma não seria percebido facilmente e assim especular livremente sobre as possibilidades futuras.
Ela mudou ao longo do tempo, assim como mudaram os ideais e princípios que regem as relações humanas. Quando surgiu como ramo literário em meados do século XIX o homem começava a desvendar os insondáveis mistérios que séculos de existência haviam relegado ao plano divino (Frankenstein, O Médico e o Mostro).
Progressivamente a ciência tornou-se capaz de provar a estrutura da matéria, a evolução da vida e das espécies, as entranhas das formas vivas, os mistérios da mente, e tantos outros que haviam povoado a imaginação humana (A Ilha do Dr. Moreau, Guerra dos Mundos, A Máquina do Tempo, 20000 Léguas Submarinas, Da Terra à Lua).
Neste ambiente, os escritores tinham um enfoque que favorecia a abordagem da ciência e de seus frutos tecnológicos e estes se tornaram seus temas principais (daí a origem do termo Ficção Científica).
Nos anos cinqüenta, com o transcorrer da guerra fria, as atenções se voltavam para a possibilidade de um ataque iminente das forças inimigas bem como da possível extinção da vida sobre a terra derivada de um confronto nuclear. A FC adaptou-se a este clima e criou inúmeras estórias sobre invasões alienígenas e confrontos entre o bem e o mal (O dia em que a Terra Parou, Dr. Fantástico, O Berço dos Super-Humanos).
Por tantas vezes a vida sobre a terra foi atingida e a civilização aniquilada, que chegamos perto de acreditar que este destino era inevitável ("A Praga Escarlate" - Jack London, "Eu Sou a Lenda" - Richard Matheson). Mas foi Marcelo Rubens Paiva em "Blecaute" (1986), quem melhor sintetizou o desconcertante vazio e solidão que assola a alma humana diante de sua extinção. Sentimentos como os evocados por esta obra são suficiente para nos levar a reagir contra os eventos que tramam pela nossa destruição.
Mais recentemente, o homem passou a ter uma abordagem mais ecológica e altruísta, novamente a FC passou a retratar tais sentimentos através de simpáticos alienígenas dedicados a colaborar com os homens na busca de um plano superior de existência (ET - O Extraterrestre, Contatos Imediatos do Terceiro Grau, Jornada nas Estrelas, 2001 - Odisséia Espacial).
Nota-se entretanto que por trás da ciência abordada nas obras desde o princípio o objetivo não era descrever a ciência pura e simplesmente. O enfoque central era sempre o Homem frente às possibilidades científicas, uma luta constante entre o bem e o mal em que a ciência e a tecnologia eram os instrumentos capazes de promover tanto um quanto o outro.
E este é exatamente o tema em "Humanos", de André Carlos Salzano Masini. O rigor científico, apesar de acessível, conferem veracidade à jornada física de um homem aos extremos de sua existência enquanto servem de pano de fundo para uma intensa jornada filosófica aos limites da percepção humana.
Um excelente exemplo de como a FC mudou é ler a série completa de Arthur C. Clarke iniciada com Encontro com Rama. Neste primeiro livro a narrativa transcorre apresentando os mistérios e maravilhas tecnológicas a bordo de uma gigantesca nave alienígena que penetrou nosso sistema solar. Ela veio e partiu deixando mais perguntas que respostas e conquistou os maiores prêmios literários para seu autor.
Como a obra apresentasse premissas que permitiam o desenvolvimento de um amplo leque de perspectivas científicas e humanitárias, Clarke decidiu escrever outros três livros para elucidar o mistério de Rama e seus ocupantes. O segundo livro, escrito aproximadamente vinte anos após o primeiro, mostra que se o mundo mudou, seu autor também. Ainda estão lá as minuciosas descrições científicas que apaixonam os leitores de Clarke. Mas também está presente uma dura e contundente análise política e sociológica de nossos tempos na qual o autor tenta mostrar que o homem estará sempre a repetir os mesmos erros do passado. Mas otimista como é, ele deixa aberta a possibilidade de vencermos nossos defeitos e construirmos um mundo melhor.
Note-se, um dos mais consagrados autores de todos os tempos deixa claro em suas obras que FC não é diferente de outros gêneros, apenas usa ambientes futurísticos para avaliar possibilidades mais amplas que se tornariam impossíveis devido à complexidade dos fatos.
Em A mão esquerda da escuridão de Ursula K. Le Guin temos uma excelente exemplo. Neste livro, relançado recentemente pela Editora Aleph, a autora desejou falar da importância do amor e da amizade e da tênue diferença que ocasionalmente existe entre elas. Para alcançar seu objetivo ela descreve a chegada do primeiro ser humano a um planeta habitado por uma espécie andrógina e o relacionamento entre este e seu anfitrião. Os membros desta espécie seriam assexuados a maior parte do tempo, mas durante a época de reprodução teriam a capacidade de assumir tanto o sexo masculino como o feminino dependendo apenas da tendência de transmutação do parceiro. Ao descrever a situação em que, o que parecia um homem, transforma-se progressivamente numa mulher e assim desperta a afeição do personagem principal, Le Guin mostra com beleza o valor da amizade. Uma tocante mensagem nestes dias de profunda transformação das relações sociais.
Seria possível escrever uma obra assim sem o mundo fantástico propiciado pela FC?
Um dos episódios da série de TV Babylon 5 tinha um enredo que poderia ser sintetizado assim: Um casal alienígena chega à estação espacial Babylon 5 em busca de auxílio médico para seu filho que corre um sério risco de vida. O médico sugere uma cirurgia como o meio mais rápido e efetivo de resolver o problema, mas os pais da criança se recusam a aceitar o tratamento sob pena do menino perder sua “alma”. Ocorre que a crença religiosa deles diz que o corpo abriga a “alma” assim sendo, se o mesmo fosse aberto, esta partiria para sempre.
Diante da negativa dos pais, o médico rende-se a sua promessa de salvar vidas e opera o menino. Quando os pais encontram a criança saudável e feliz, definitivamente fora de perigo, rejeitam-na como se ela estivesse possuída por um demônio. Eles levam o menino para submetê-lo a um ritual de purificação que o médico descobre depois nada mais é do que o sacrifício do corpo para que este encontre a alma que já partiu.
Pois bem, este enredo ficcional não é uma estória inédita, tampouco foi originalmente concebida como ficção. Ela, com variações, ocorre todos os dias em diversos hospitais ao redor do mundo. Pessoas morrem sem assistência sob a tutela de princípios religiosos. Não foram poucos os casos na história recente de nosso país em que crianças perderam a vida porque os pais recusaram-se a permitir que elas recebessem uma transfusão de sangue.
Ora, mas porque tratar de um assunto como este em uma obra de FC. Porque não fazer um daqueles dramas televisivos que costumamos ver na programação dos sábados à noite?
Porque se assim fosse você não assistiria. Diria apenas, “ora a criança vai morrer no final”, ou então “como sempre tudo vai acabar bem”. Com FC as pessoas olham para o conteúdo e não dão valor às aparências. Elas se concentram no cerne das questões.
Sobre outro tema de grande repercussão nos dias atuais, o aquecimento global, o paulista Ignácio de Loyola Brandão fez em 1982 uma descrição ácida, abafada e caótica de uma São Paulo futurística. Nesta distopia, todas as esperanças de solução dos problemas ambientais resultam infrutíferas e o resultado destas agressões atingem dimensões catastróficas. A leitura, sufocante, de "Não Verás País Nenhum" deveria ser obrigatória não apenas nas escolas, mas também nos fóruns ecológicos e gabinetes de lideres mundiais.
Então, temos que a ficção científica apenas recorre aos mesmos temas e princípios que todas as obras de ficção em geral. Apenas situa-se em ambientes futurísticos com personagens inimagináveis de modo a destacar, tornando mais clara, a mensagem que quer transmitir. Ela continua a tratar dos mesmos medos e anseios do homem. Apenas isola estes temas em uma câmara de espaço-tempo para que eles possam ser analisados sem preconceitos e tabus.
Assim, pobres e limitados espectadores que somos, sentimo-nos livres de nossos preconceitos e amarras morais e sociais para fazer um mea-culpa e quem sabe tomar atitudes que nos permitam construir um mundo melhor.
Surpreendidas pela novela que narrava a invasão da Terra por marcianos, apresentada em tom jornalístico de grande densidade dramática, centenas de pessoas fugiram de suas casas buscando refúgio enquanto outras se armavam para defender seus lares e suas famílias. Até mesmo alguns centros militares mantiveram-se em estado de alerta até que toda a confusão se esclarecesse.
O episódio serviu para comprovar algo que os estudiosos da ficção científica não se cansam de demonstrar e que o público, dito culto, recusa em aceitar. A ficção científica não é um fenômeno marginal dedicado a preencher os sonhos juvenis de fantasias absurdas e inverossímeis.
Não! A FC é um segmento artístico da ficção em geral, manifestada em todas as artes e culturas humanas.
Quando em 1938, as pessoas saíram correndo de suas casas elas não fugiam porque eram "fissuradas" em estórias de FC, fugiram porque tinham medo. O mesmo medo que fez os judeus fugirem da Alemanha Nazista, os russos fugirem da revolução Bolchevique, e mais recentemente os Hutus do governo Tutsi no Zaire.
A FC não é literatura de fantástico. Situa-se no limiar entre ciência e mistério como ambiente para descrever aquilo que de outra forma não seria percebido facilmente e assim especular livremente sobre as possibilidades futuras.
Ela mudou ao longo do tempo, assim como mudaram os ideais e princípios que regem as relações humanas. Quando surgiu como ramo literário em meados do século XIX o homem começava a desvendar os insondáveis mistérios que séculos de existência haviam relegado ao plano divino (Frankenstein, O Médico e o Mostro).
Progressivamente a ciência tornou-se capaz de provar a estrutura da matéria, a evolução da vida e das espécies, as entranhas das formas vivas, os mistérios da mente, e tantos outros que haviam povoado a imaginação humana (A Ilha do Dr. Moreau, Guerra dos Mundos, A Máquina do Tempo, 20000 Léguas Submarinas, Da Terra à Lua).
Neste ambiente, os escritores tinham um enfoque que favorecia a abordagem da ciência e de seus frutos tecnológicos e estes se tornaram seus temas principais (daí a origem do termo Ficção Científica).
Nos anos cinqüenta, com o transcorrer da guerra fria, as atenções se voltavam para a possibilidade de um ataque iminente das forças inimigas bem como da possível extinção da vida sobre a terra derivada de um confronto nuclear. A FC adaptou-se a este clima e criou inúmeras estórias sobre invasões alienígenas e confrontos entre o bem e o mal (O dia em que a Terra Parou, Dr. Fantástico, O Berço dos Super-Humanos).
Por tantas vezes a vida sobre a terra foi atingida e a civilização aniquilada, que chegamos perto de acreditar que este destino era inevitável ("A Praga Escarlate" - Jack London, "Eu Sou a Lenda" - Richard Matheson). Mas foi Marcelo Rubens Paiva em "Blecaute" (1986), quem melhor sintetizou o desconcertante vazio e solidão que assola a alma humana diante de sua extinção. Sentimentos como os evocados por esta obra são suficiente para nos levar a reagir contra os eventos que tramam pela nossa destruição.
Mais recentemente, o homem passou a ter uma abordagem mais ecológica e altruísta, novamente a FC passou a retratar tais sentimentos através de simpáticos alienígenas dedicados a colaborar com os homens na busca de um plano superior de existência (ET - O Extraterrestre, Contatos Imediatos do Terceiro Grau, Jornada nas Estrelas, 2001 - Odisséia Espacial).
Nota-se entretanto que por trás da ciência abordada nas obras desde o princípio o objetivo não era descrever a ciência pura e simplesmente. O enfoque central era sempre o Homem frente às possibilidades científicas, uma luta constante entre o bem e o mal em que a ciência e a tecnologia eram os instrumentos capazes de promover tanto um quanto o outro.
E este é exatamente o tema em "Humanos", de André Carlos Salzano Masini. O rigor científico, apesar de acessível, conferem veracidade à jornada física de um homem aos extremos de sua existência enquanto servem de pano de fundo para uma intensa jornada filosófica aos limites da percepção humana.
Um excelente exemplo de como a FC mudou é ler a série completa de Arthur C. Clarke iniciada com Encontro com Rama. Neste primeiro livro a narrativa transcorre apresentando os mistérios e maravilhas tecnológicas a bordo de uma gigantesca nave alienígena que penetrou nosso sistema solar. Ela veio e partiu deixando mais perguntas que respostas e conquistou os maiores prêmios literários para seu autor.
Como a obra apresentasse premissas que permitiam o desenvolvimento de um amplo leque de perspectivas científicas e humanitárias, Clarke decidiu escrever outros três livros para elucidar o mistério de Rama e seus ocupantes. O segundo livro, escrito aproximadamente vinte anos após o primeiro, mostra que se o mundo mudou, seu autor também. Ainda estão lá as minuciosas descrições científicas que apaixonam os leitores de Clarke. Mas também está presente uma dura e contundente análise política e sociológica de nossos tempos na qual o autor tenta mostrar que o homem estará sempre a repetir os mesmos erros do passado. Mas otimista como é, ele deixa aberta a possibilidade de vencermos nossos defeitos e construirmos um mundo melhor.
Note-se, um dos mais consagrados autores de todos os tempos deixa claro em suas obras que FC não é diferente de outros gêneros, apenas usa ambientes futurísticos para avaliar possibilidades mais amplas que se tornariam impossíveis devido à complexidade dos fatos.
Em A mão esquerda da escuridão de Ursula K. Le Guin temos uma excelente exemplo. Neste livro, relançado recentemente pela Editora Aleph, a autora desejou falar da importância do amor e da amizade e da tênue diferença que ocasionalmente existe entre elas. Para alcançar seu objetivo ela descreve a chegada do primeiro ser humano a um planeta habitado por uma espécie andrógina e o relacionamento entre este e seu anfitrião. Os membros desta espécie seriam assexuados a maior parte do tempo, mas durante a época de reprodução teriam a capacidade de assumir tanto o sexo masculino como o feminino dependendo apenas da tendência de transmutação do parceiro. Ao descrever a situação em que, o que parecia um homem, transforma-se progressivamente numa mulher e assim desperta a afeição do personagem principal, Le Guin mostra com beleza o valor da amizade. Uma tocante mensagem nestes dias de profunda transformação das relações sociais.
Seria possível escrever uma obra assim sem o mundo fantástico propiciado pela FC?
Um dos episódios da série de TV Babylon 5 tinha um enredo que poderia ser sintetizado assim: Um casal alienígena chega à estação espacial Babylon 5 em busca de auxílio médico para seu filho que corre um sério risco de vida. O médico sugere uma cirurgia como o meio mais rápido e efetivo de resolver o problema, mas os pais da criança se recusam a aceitar o tratamento sob pena do menino perder sua “alma”. Ocorre que a crença religiosa deles diz que o corpo abriga a “alma” assim sendo, se o mesmo fosse aberto, esta partiria para sempre.
Diante da negativa dos pais, o médico rende-se a sua promessa de salvar vidas e opera o menino. Quando os pais encontram a criança saudável e feliz, definitivamente fora de perigo, rejeitam-na como se ela estivesse possuída por um demônio. Eles levam o menino para submetê-lo a um ritual de purificação que o médico descobre depois nada mais é do que o sacrifício do corpo para que este encontre a alma que já partiu.
Pois bem, este enredo ficcional não é uma estória inédita, tampouco foi originalmente concebida como ficção. Ela, com variações, ocorre todos os dias em diversos hospitais ao redor do mundo. Pessoas morrem sem assistência sob a tutela de princípios religiosos. Não foram poucos os casos na história recente de nosso país em que crianças perderam a vida porque os pais recusaram-se a permitir que elas recebessem uma transfusão de sangue.
Ora, mas porque tratar de um assunto como este em uma obra de FC. Porque não fazer um daqueles dramas televisivos que costumamos ver na programação dos sábados à noite?
Porque se assim fosse você não assistiria. Diria apenas, “ora a criança vai morrer no final”, ou então “como sempre tudo vai acabar bem”. Com FC as pessoas olham para o conteúdo e não dão valor às aparências. Elas se concentram no cerne das questões.
Sobre outro tema de grande repercussão nos dias atuais, o aquecimento global, o paulista Ignácio de Loyola Brandão fez em 1982 uma descrição ácida, abafada e caótica de uma São Paulo futurística. Nesta distopia, todas as esperanças de solução dos problemas ambientais resultam infrutíferas e o resultado destas agressões atingem dimensões catastróficas. A leitura, sufocante, de "Não Verás País Nenhum" deveria ser obrigatória não apenas nas escolas, mas também nos fóruns ecológicos e gabinetes de lideres mundiais.
Então, temos que a ficção científica apenas recorre aos mesmos temas e princípios que todas as obras de ficção em geral. Apenas situa-se em ambientes futurísticos com personagens inimagináveis de modo a destacar, tornando mais clara, a mensagem que quer transmitir. Ela continua a tratar dos mesmos medos e anseios do homem. Apenas isola estes temas em uma câmara de espaço-tempo para que eles possam ser analisados sem preconceitos e tabus.
Assim, pobres e limitados espectadores que somos, sentimo-nos livres de nossos preconceitos e amarras morais e sociais para fazer um mea-culpa e quem sabe tomar atitudes que nos permitam construir um mundo melhor.
quinta-feira, 1 de junho de 2006
Não é difícil compreender os ETs
Longe de casa, depois do almoço, tempo livre antes de uma tarde de reuniões tolas e improdutivas.
Sem museus para visitar, nem dinheiro para gastar. Entro na livraria que me permite um sopro de civilidade e sonho.
Chama à atenção a banca de saldos “a partir de 1,99” não se encontra nada, mas pelo menos se gasta tempo. Útil para quem só tem tempo sobrando.
Vira e revira, quase dá vontade de arrumar. Colocar tudo em ordem, como se espera numa livraria. Mas ali não, a ordem é subvertida em favor do caos. Sem a “biblio”, restou a “economia”.
Tantos títulos repetidos, antiquados, sobre temas datados.
Alguns até bonitinho, capa não faz o livro, mas fica bonitinho e ajuda a vender, mas “Enfrentando a hiperinflação” e “dBase para iniciantes” não há capa que consiga vender.
Mas naquele amontoado de papéis algo tem um brilho especial. Bonitinho sim, título intrigante para um apaixonado por ficção científica, mas será que vai além da capa? Pequeno, quase modesto, parecendo pessoas “de atitude” que se destacam na multidão.
Lugar errado, caiu ali por acidente, não é “saldão”. Mas que seja, valeu cada centavo e ainda foi no cartão.
Abro. Abrir um livro é como molhar os pés na água para sentir a temperatura. Quase nunca nos diz como a água está, mas quando convida, nos impele a lançar o corpo de uma vez, por inteiro.
Me jogo, de ponta, e logo sinto um mundo silencioso, denso, envolvente, leve. De tal modo sufocante que me fazer buscar com sofreguidão o ar, meu próprio ambiente, mas sem nunca esquecer ou deixar de desejar voltar.
Estando lá, nas ondulações envolventes e cativantes, ora pensativas, ora alientantes, é possível entender como se sentem os estrangeiros.
Realmente, “não é difícil compreender os ETs”.
E como deve ser bela uma vida narrada pelas mãos que produziram a alquimia daquelas palavras.
Tensa, rápida, telegráfica. Ombros arqueados pelo peso de dores e idéias inacabadas. Os olhos alertas e o coração vibrante.
E a mente perguntando: Será ciência ou magia?
Simplesmente poesia.
Texto inspirado pela obra da autora Laís Chaffe.
Sem museus para visitar, nem dinheiro para gastar. Entro na livraria que me permite um sopro de civilidade e sonho.
Chama à atenção a banca de saldos “a partir de 1,99” não se encontra nada, mas pelo menos se gasta tempo. Útil para quem só tem tempo sobrando.
Vira e revira, quase dá vontade de arrumar. Colocar tudo em ordem, como se espera numa livraria. Mas ali não, a ordem é subvertida em favor do caos. Sem a “biblio”, restou a “economia”.
Tantos títulos repetidos, antiquados, sobre temas datados.
Alguns até bonitinho, capa não faz o livro, mas fica bonitinho e ajuda a vender, mas “Enfrentando a hiperinflação” e “dBase para iniciantes” não há capa que consiga vender.
Mas naquele amontoado de papéis algo tem um brilho especial. Bonitinho sim, título intrigante para um apaixonado por ficção científica, mas será que vai além da capa? Pequeno, quase modesto, parecendo pessoas “de atitude” que se destacam na multidão.
Lugar errado, caiu ali por acidente, não é “saldão”. Mas que seja, valeu cada centavo e ainda foi no cartão.
Abro. Abrir um livro é como molhar os pés na água para sentir a temperatura. Quase nunca nos diz como a água está, mas quando convida, nos impele a lançar o corpo de uma vez, por inteiro.
Me jogo, de ponta, e logo sinto um mundo silencioso, denso, envolvente, leve. De tal modo sufocante que me fazer buscar com sofreguidão o ar, meu próprio ambiente, mas sem nunca esquecer ou deixar de desejar voltar.
Estando lá, nas ondulações envolventes e cativantes, ora pensativas, ora alientantes, é possível entender como se sentem os estrangeiros.
Realmente, “não é difícil compreender os ETs”.
E como deve ser bela uma vida narrada pelas mãos que produziram a alquimia daquelas palavras.
Tensa, rápida, telegráfica. Ombros arqueados pelo peso de dores e idéias inacabadas. Os olhos alertas e o coração vibrante.
E a mente perguntando: Será ciência ou magia?
Simplesmente poesia.
Texto inspirado pela obra da autora Laís Chaffe.
terça-feira, 23 de maio de 2006
Conhecimento X Sabedoria
Certa vez um bom amigo e eu estávamos postados às margens do Rio Cuiabá com nossas varas de fibra de carbono, nossos molinetes e iscas artificiais regalando-nos do prazer de desfrutar um dia de pesca esportiva junto à natureza exuberante daquela região.
Mal havíamos nos preparado para o desfrute e diante de nós passou uma tosca embarcação de madeira cunhada a machadinha na tora de uma árvore. À moda indígena tinha um velho e mulato caboclo conduzindo a embarcação com um remo entalhado.
Mesmo muito magro o peso do velho impunha ao barco um desnível que na linha d’água de modo que a pequena criança postada à proa parecia mais um adorno do que um tripulante.
- Diiia! – cumprimentou o velho com voz contida e sotaque carregado.
- BOM DIA! – respondemos quase em uníssono com nossas vozes carregadas de surpresa de ver alguém com disposição suficiente para arriscar uma manhã tão linda de domingo numa canoa lenta e insegura.
Quando pouco depois o barco sumiu por detrás da vegetação ribeirinha olhamo-nos com um misto de pena e desprezo por aquela criatura sem cultura que almejava enfrentar a natureza munida apenas de parcos e rústicos equipamentos.
Após algum tempo nossa euforia matinal já estava amortecida pelo sol que então já se fazia alto. Nosso acervo de piadas tolas esvaíra-se na velocidade inversa com que aumentava nosso “estoque” de peixes que agora contabilizava a irrisória quantia de um raquítico "piau" e um pequeno "lambari".
Neste momento, desta vez descendo o rio, novamente a canoa passou. Sem surpresa pude reparar melhor. O homem não era assim tão velho. Marcado pela dura lida no campo sim, mas a pele vincada era mais uma mostra de que sua aparente magreza era mais um corpo definido e modelado pelo incessante trabalho físico do que pela falta de uma dieta mais rica.
O jovem à frente do barco era sem dúvida muito jovem, mas trazia no rosto a expressão de quem já conseguia enxergar o horizonte não mais com os olhos sonhadores de uma criança, mas com lucidez e esperança.
Meu amigo não pode conter sua curiosidade e perguntou: - E então, como foi a pescaria?
- Mal. - respondeu o barqueiro com certo tom de desânimo na voz – Só pegamos um "Pintado" e dois "Pacus".
Não dissemos mais nenhuma palavra. Ficamos apenas olhando o barco sumir na curva do rio. E quando nos fitamos novamente só fomos capazes de rir abundantemente da ironia da situação. Recolhemos nosso orgulho esparramado pelo chão junto com as tralhas de pesca e fomos nos dedicar a tarefas mais afeitas a nossa competência, quer seja, beber umas cervejas, comer um churrasco e rir de nosso inútil conhecimento diante daquela demonstração de sabedoria.
Mal havíamos nos preparado para o desfrute e diante de nós passou uma tosca embarcação de madeira cunhada a machadinha na tora de uma árvore. À moda indígena tinha um velho e mulato caboclo conduzindo a embarcação com um remo entalhado.
Mesmo muito magro o peso do velho impunha ao barco um desnível que na linha d’água de modo que a pequena criança postada à proa parecia mais um adorno do que um tripulante.
- Diiia! – cumprimentou o velho com voz contida e sotaque carregado.
- BOM DIA! – respondemos quase em uníssono com nossas vozes carregadas de surpresa de ver alguém com disposição suficiente para arriscar uma manhã tão linda de domingo numa canoa lenta e insegura.
Quando pouco depois o barco sumiu por detrás da vegetação ribeirinha olhamo-nos com um misto de pena e desprezo por aquela criatura sem cultura que almejava enfrentar a natureza munida apenas de parcos e rústicos equipamentos.
Após algum tempo nossa euforia matinal já estava amortecida pelo sol que então já se fazia alto. Nosso acervo de piadas tolas esvaíra-se na velocidade inversa com que aumentava nosso “estoque” de peixes que agora contabilizava a irrisória quantia de um raquítico "piau" e um pequeno "lambari".
Neste momento, desta vez descendo o rio, novamente a canoa passou. Sem surpresa pude reparar melhor. O homem não era assim tão velho. Marcado pela dura lida no campo sim, mas a pele vincada era mais uma mostra de que sua aparente magreza era mais um corpo definido e modelado pelo incessante trabalho físico do que pela falta de uma dieta mais rica.
O jovem à frente do barco era sem dúvida muito jovem, mas trazia no rosto a expressão de quem já conseguia enxergar o horizonte não mais com os olhos sonhadores de uma criança, mas com lucidez e esperança.
Meu amigo não pode conter sua curiosidade e perguntou: - E então, como foi a pescaria?
- Mal. - respondeu o barqueiro com certo tom de desânimo na voz – Só pegamos um "Pintado" e dois "Pacus".
Não dissemos mais nenhuma palavra. Ficamos apenas olhando o barco sumir na curva do rio. E quando nos fitamos novamente só fomos capazes de rir abundantemente da ironia da situação. Recolhemos nosso orgulho esparramado pelo chão junto com as tralhas de pesca e fomos nos dedicar a tarefas mais afeitas a nossa competência, quer seja, beber umas cervejas, comer um churrasco e rir de nosso inútil conhecimento diante daquela demonstração de sabedoria.
sexta-feira, 19 de maio de 2006
Em defesa do código
Depois do estrondoso sucesso literário, estreou nos cinemas o Código da Vinci.
Não importa muito se terá sucesso de bilheteria ou de crítica, o maior desafio que o título poderia vencer já foi conquistado.
Levar às pessoas a refletir sobre dogmas que são aceitos com verdades absolutas já é uma grande realização.
Código é um conjunto de leis ou regulamentos.
O que a ficção do “Código da Vinci” realiza com sucesso é mostrar que o “Código de Jesus” continua atual e incorruptível. Ele está fundamentado nas lições morais que ele legou à posteridade e não está consubstanciado na sua existência material, na sua vida privada.
O maior legado da vida de Jesus permanece inatacável, sua mensagem de amor e tolerância.
Os fatos relativos à sua figura histórica são tão escassos quanto irrelevantes. Se ele se casou e teve filhos, ou até mesmo se morreu crucificado ou não, são questões interessantes, mas menos importantes que suas lições de moralidade.
A polêmica em torno da ficção criada por Dan Brown só reforça o apego que as pessoas tem às aparências, algo que o próprio Cristo condenou na figura dos fariseus.
Revestir Jesus de características humanas não o diminui, ao contrário o enobrece.
É mais fácil ser puro e bom quando se é um Super-Humano, O próprio filho de Deus.
Muito mais difícil é trilhar o caminho do amor e da retidão sendo apenas um reles mortal.
Recentes descobertas históricas propõem uma reavaliação do papel de Judas na condenação do Cristo. Ele pregou o amor e o perdão, mas seus seguidores em dois mil anos de história ainda não foram capazes de perdoar aquele que o teria traído.
Contra-senso? Ou apenas o respeito ao princípio: “Faça o que eu digo, não faça o que eu faço”...
Ao elevá-lo a um patamar inalcançável à natureza humano, criamos obstáculos intransponíveis para cumprirmos seus ensinamentos.
Ao contrário de nós, ele podia realizar grandes coisas pois era mais que humano.
Nos somos incapazes de viver em paz porque somos apenas humanos.
Somos incapazes de perdoar porque somos apenas humanos.
Somos incapazes de amar como Jesus porque somos apenas humanos.
Mas se ele foi apenas um humano, iluminado sim, mas humano então temos esperança de um dia construir o mundo que ele sonhou para nós.
Então vamos deixar de polêmica.
Vamos nos divertir com o "Código da Vinci" e vamos viver o "Código de Jesus".
Não importa muito se terá sucesso de bilheteria ou de crítica, o maior desafio que o título poderia vencer já foi conquistado.
Levar às pessoas a refletir sobre dogmas que são aceitos com verdades absolutas já é uma grande realização.
Código é um conjunto de leis ou regulamentos.
O que a ficção do “Código da Vinci” realiza com sucesso é mostrar que o “Código de Jesus” continua atual e incorruptível. Ele está fundamentado nas lições morais que ele legou à posteridade e não está consubstanciado na sua existência material, na sua vida privada.
O maior legado da vida de Jesus permanece inatacável, sua mensagem de amor e tolerância.
Os fatos relativos à sua figura histórica são tão escassos quanto irrelevantes. Se ele se casou e teve filhos, ou até mesmo se morreu crucificado ou não, são questões interessantes, mas menos importantes que suas lições de moralidade.
A polêmica em torno da ficção criada por Dan Brown só reforça o apego que as pessoas tem às aparências, algo que o próprio Cristo condenou na figura dos fariseus.
Revestir Jesus de características humanas não o diminui, ao contrário o enobrece.
É mais fácil ser puro e bom quando se é um Super-Humano, O próprio filho de Deus.
Muito mais difícil é trilhar o caminho do amor e da retidão sendo apenas um reles mortal.
Recentes descobertas históricas propõem uma reavaliação do papel de Judas na condenação do Cristo. Ele pregou o amor e o perdão, mas seus seguidores em dois mil anos de história ainda não foram capazes de perdoar aquele que o teria traído.
Contra-senso? Ou apenas o respeito ao princípio: “Faça o que eu digo, não faça o que eu faço”...
Ao elevá-lo a um patamar inalcançável à natureza humano, criamos obstáculos intransponíveis para cumprirmos seus ensinamentos.
Ao contrário de nós, ele podia realizar grandes coisas pois era mais que humano.
Nos somos incapazes de viver em paz porque somos apenas humanos.
Somos incapazes de perdoar porque somos apenas humanos.
Somos incapazes de amar como Jesus porque somos apenas humanos.
Mas se ele foi apenas um humano, iluminado sim, mas humano então temos esperança de um dia construir o mundo que ele sonhou para nós.
Então vamos deixar de polêmica.
Vamos nos divertir com o "Código da Vinci" e vamos viver o "Código de Jesus".
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